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O GRUNJO


Um velho homem sentado a beira de uma estrada de terra, completamente deserta; tampa o rosto de um banho de poeira ocasionado pelo passar de um carro em alta velocidade. Com uma manta verde bordada a mão, bem suja e com manchas de sangue, rasgada e desfiada o podre senhor se protege para não ser sufocado, era a única coisa que tinha para se resguardar. Tal infortúnio só não seria comum se por um acaso o pneu do veloz veiculo não furasse. Muito nervoso, um rapaz bem indumentado desce do carro, bate a porta e resmunga:

- Que merda! Só essa que me faltava. Como vou trocar este pneu sem um macaco.

No vulto de poeira ainda misturado ao ar, o velho senhor todo sujo, se levanta e vem em direção ao jovem motorista, o rapaz se assusta, não imaginava que em uma estrada deserta como aquela poderia encontrar cabulosa figura. Desconfiado o rapaz preparasse para correr, ou se defender, ainda não estava certo da sua decisão, mais ao perceber que o velho não traria perigo, deixa-o aproximar, de alguma distância ele diz:

- Vovô, o que quer? Saiba que estou armado e não tenho medo de matar! Já o fiz antes.

Muito rouco e ainda buscando ar o velho responde

a tossir:

- Posso te ajudar com o que quer!

- Como Pode saber o que quero homem decrépito.

- Eu sei de muitas coisas; ambicioso jovem.

- Pois bem! Então me conte! O que posso querer?

- Muito bem rapaz. Só te peço que escute com atenção, a história que Lhe contarei agora.

Ele se aproxima e o jovem não tem mais medo ou receio do velho, eles se sentam e atentamente o neófito escuta a intrigante fábula.

******

Era noite de sábado e a lua destacava-se no céu purificado, clareando toda a igreja matriz de São Jorge, com suas majestosas luzes lunares, olhando para os micros-cosmos podia se pré-supor ás horas, 21:00H, próximo ao término da última missa e de mais um dia pacato, na cidade de Ouro Verde um povoado no interior de Minas Gerais, vilarejo com exatos 4.378 habitantes, rica em recursos minerais, crescente influência na agropecuária da região e desenvoltas lavouras de café e de cana. Muitos dos seus moradores, surpreenderam-se com misteriosos sons que ecoaram da mata do Jambrado. Esta mata famosa, cortava duas, importantes Fazendas da região, a do Ipê, que pertencia ao Coronel Ferraz Maltta, e a do Córrego do Tenente, de propriedade do Coronel Quincas Rolha, dois homens de enorme poder financeiro e político da região, mas profundamente divergentes. Boatos antigos relatam que o motivo de tamanha desavença era a paixão secreta do Coronel Quincas Rolha por Dona Flor, mulher do Coronel Ferraz Maltta. Os anciões contam que anos atrás, quando os dois coronéis eram jovens, disputaram o amor da moça Flor. Ferraz Maltta a conquistou com presentes dispendiosos e promessa de um futuro tranqüilo, não só para ela como também para seus familiares que, na época, precisavam de muito auxilio. O pai da moça, á beira da morte, vítima de um derrame, e a mãe, acostumada somente com os afazeres de dona de casa, não tinham meios de sustentar a todos. Naquele tempo Quincas não tinha condições de lhe oferecer um bom futuro. Assim, por não ter posses, perdeu seu grande amor para Ferraz, homem que sempre pensou que o dinheiro compra tudo. Ferraz e Flor nos anos que se seguiram ao casamento, tiveram três belos filhos, beleza herdada da mãe que concebeu um menino e duas meninas, do jeito que queria Ferraz Maltta. Cida, a filha do meio, nos inúmeros comentários sempre era citada primeira claro, já que era uma linda moça de dezesseis anos, na verdade a mais bonita de todas; um conjunto que se mostrava extremamente uniforme, lindo rosto de menina e o magnífico corpo de mulher recém formado; cabelos castanhos lisos e bem longos que beiravam a perfeita cintura da juveníssima, seus olhos claros cor do céu, boca vermelha como cereja e seios fartos, completavam, a cobiçada, moça Cida, realmente lindíssima. Seu irmão Ferraz Maltta Junior, ou JR como era conhecido na cidade, mal acabara de comemorar dezoito anos e já tinha postura de coronelzinho; adorava mandar nos empregados da fazenda e não aceitava desmandes de ninguém, assim bem parecido com o pai, até mesmo fisicamente, um protótipo estereotipado, idêntico, clone nos olhos de muitos, cabelos escuros e rosto firme de queixo grande, braço forte e peitoral já bem definido; estiloso no traje esbanjava soberba, que para ele era normalmente atávica; parceiro incondicional do pai o contemplava e respeitava-o, seguindo todos os passos do seu ídolo, admirava-o acima de tudo, pelo modo como conduzia seu império que, só não era completo, por causa de sua avantesma “sombra”, o Coronel Quincas Rolha. Berenice, a filha caçula de doze anos, era a menos afortunada dos três irmãos, pois, devido a um trauma quando novinha ficou muda e nunca mais pronunciou se quer uma só palavra; a menina também como a irmã tinha lindos traços que de certo em um futuro próximo desabrocharia.

*

O Coronel Quincas Rolha, quando jovem, não era rico, muito pelo contrário, era pobre, não tinha nada a não ser a roupa do corpo. Saiu da Cidade de Ouro Verde pobre e voltou algum tempo depois do casamento do Coronel Ferraz Maltta e Flor; muito apatacado. Foi procurar fortuna fora e a encontrou. Naquela época logo após o retorno de Quincas; o velho Coronel Chico Maltta, pai de Ferraz, fez grande dívida na região, devido a um mau investimento na lavoura de café, viu-se obrigado a vender metade de suas terras para Quincas Rolha, o único na cidade com dinheiro bastante para comprá-las a um bom preço. Apesar da indignação e incontáveis pedidos de seu herdeiro Ferraz, o Coronel Chico Maltta vendeu metade de suas terras para Quincas, mas exigiu que ele, tal como Ferraz, não vendesse a mata do Jambrado para ninguém. Seriam os donos dela para sempre. Quincas concordou com o velho Coronel, pois este só venderia as terras com essa condição e sob ameaça de voltar, para assombrá-los, se o acordo fosse quebrado, quais ás intenções do velho de fato não sabiam, mais sem questionar o acordo foi concretizado.

Depois de alguns anos Quincas conformou-se em perder seu grande amor e seguiu sua vida. Os negócios iam bem e todos adoravam trabalhar na nova Fazenda, que foi erguida nas terras recém compradas e recebeu o imponente nome de Córrego do Tenente; ele era muito respeitado por todos os seus empregados. Certo dia, o Coronel Quincas Rolha resolvendo parabenizar o responsável por sua plantação, foi até a sua fabulosa horta que fazia o maior sucesso na cidade. Quando abriu o portão, teve a maior surpresa, viu sentada junto aos pezinhos de alface, uma linda jovem, realmente encantadora, que segurando um pequeno regador, regava com extremo cuidado, uma por uma, as várias mudas de um dos enormes canteiros. Ele aproximou-se da moça, olhou bem seu angelical rosto e falou:

- Por isso as hortaliças de minha fazenda são as mais vistosas de toda cidade de Ouro Verde! Qual é o seu nome? Linda jovem.

A moça levantou-se rapidamente do chão, deixando cair o regador, e com um leve sorriso no rosto e ainda de cabeça baixa, respondeu ao patrão:

- É Maria das Dores! Senhor Coronel.

- Por favor, pode me chamar somente de Quincas, não gosto de exageros no tratamento; posso até não parecer, mas sou um homem simples e sei dar valor ao meu povo.

Encantado com a beleza de Maria das Dores, que era chamada carinhosamente de Dôra, Quincas passou a freqüentar a horta todos os dias; os dois conversavam bastante, sobre diversos assuntos, tornaram-se bons amigos; logo depois começaram a namorar e um belo dia ele surpreendeu a jovem pedindo-aem casamento. Algum tempo após o pedido, Quincas sempre muito organizado e decidido, casou-se com Dôra, moça simples e muito bonita, filha de um dos seus empregados, ela guardava no coração um enorme amor por seu marido. Viveram bons anos de casamento; sempre companheira, era exemplo de esposa, mas a vida com seus caminhos inesperados tirou-lhe a maior alegria que uma mulher pode ter, não lhes deu filhos, pois Dôra era estéril. A pobre fazia de tudo para engravidar, mas de forma alguma conseguia conceber um herdeiro; tão grande foi a tristeza e desgosto da moça em não ter os filhos que Quincas tanto queria, que acabou adoecendo. Tomava várias poções trazidas a ela por qualquer charlatão que lhe dissesse que tomando a beberagem conseguiria gerar uma criança, miúdo esse que a ligaria a seu amando para sempre; aquilo se tornara uma verdadeira obsessão para ela, engravidar era sua meta, sentia que Quincas também a amava, ela era correspondida, tamanha a volúpia com que um se entregavam na cama. Faleceu envenenada por uma das muitas fusões de que fazia uso constantemente, sem nenhum controle, deixando viúvo, o justo Coronel, que não sabia da angústia, em que vivia sua linda Dôra.

Tal tragédia tirou de Quincas a alegria de viver; desacreditou do amor, pois perdera Flor e agora para sempre Dôra. Por isso, dedicou sua vida a aumentar suas posses, fazendo cada vez mais dinheiro. Acumulando incalculável fortuna, um reino, além de seu próspero poder político, ganhava a admiração e respeito do povo com discursos inflamados e empolgantes; era o que sabia fazer de melhor, ele tinha o dom da palavra, um verdadeiro instrumento da oratória, um líder nato.

Dona Flor, que há muito se conformara com a sina de esposa do homem mesquinho e arrogante que era Ferraz, dedicou a vida aos filhos e ao comando da casa, um exemplo de mãe e esposa devotada; esqueceu de viver sua própria vida em prol de seus filhos, mas, no fundo do coração, ainda tinha dúvida se aquela era a vida que queria; muitas vezes era surpreendida pela filha Berenice, sentada na varanda da casa grande, com o olhar parado e bem distante nas montanhas, pensando como teria sido sua vida se naquela época difícil tivesse escolhido Quincas, seu grande e verdadeiro amor. Sempre se lembrava do dia em que o conhecera; ela era uma jovem mocinha que constantemente acompanhava seu pai nas compras mensais que eram feitas no armazém do Sr. William, bem no centro da cidade, Quincas trabalhava como atendente, caixa e carregador das compras, uma espécie de faz tudo; em troca, seu patrão lhe dava moradia, pois ele não tinha quem o protegesse. Nunca conheceu seus pais; foi abandonado na estrada da cidade ainda criancinha e encontrado pelo Sr. Willian, perambulando, ele o acolheu, criando-o e ensinando-o a ser um bom homem. Flor, quando viu o jovem Quincas, logo se encantou; um rapaz formoso e de físico avantajado, corpo bem atlético, cabelos negros, aparados prá baixo das orelhas, características que li davam um ar de mistério e fascínio, olhos cinzentos de rara beleza, deixando-a embasbacada jovial mulher; ele também apaixonou-se á primeira vista; Flor era linda, um corpo volumoso dotado de todos atributos que se faz presente em toda cobiçada figura feminina, maravilhosa, seus cabelos castanhos, brilhavam como o dia sorrindo em manhãs de sol; no começo os dois trocavam olhares, o famoso flerte, e depois bilhetinhos marcando encontros secretos nas montanhas da cidade; a cada entrega feita por Quincas, uma nova cartinha, que a moça Flor recebia com radiante alegria; tudo muito bem escondido do pai de Flor, Sr. Lazaro Martins, homem bravo e membro da elite ouroverdense, que por certo não aprovaria o namoro dos dois jovens amantes. Mas os tempos difíceis logo chegaram e a pobre e apaixonada moça teve que escolher seu destino. Até hoje não se esquece do seu último encontro com Quincas, atrás da Igreja Matriz, onde lhe disse que não mais poderiam se encontrar, a partir daquele dia, ela ficaria com Ferraz, pois o seu pai a prometera. Quincas respeitou a decisão de Flor e nunca mais a procurou, suprimindo seus sentimentos mais profundos.

******

Logo alguns gritos começam, vindos da mata do Jambrado; o vento sopra varrendo as folhas das árvores que, balançam fortemente. Os sons se misturam com os gritos de uma misteriosa sombra, os ruídos tomam toda a mata; os animais escondem-se em seus abrigos. O medo é geral e todos se perguntam, o que é isto? Terror não só na mata, mas, também, na urbe inteira que de cabo a rabo, escuta os berros demoníacos, as risadas sarcásticas, os gritos e os lamentos de dor; a aura aumenta a pressão parecendo ser comandada; muitas pessoas se trancam em suas casas, outros se atropelam seguindo a mesma direção e ao mesmo tempo para dentro da Igreja; acreditando ser o apocalipse total, não param de rezar; os dois gigantescos sinos da Igreja Matriz de São Jorge despencam das torres, tamanha a pressão do vento, um dos badalos cai em cima do altar do Santo Guerreiro destruindo toda a imagem barroca e a outra campana cai desastradamente na escadaria do enorme templo cristã; o povo grita desesperado e o Arcebispo, que estava em visita ao arrabalde da cidade, nem se mexe, tal é seu medo; de olhos fechados reza temendo ser o fim de tudo, ele nunca presenciara tal acontecimento. Dez minutos depois tudo acaba, exatas 21:10H. O vento pára e se recolhe para dentro da mata do Jambrado. No centro do bosque tudo termina exatamente onde começou. Os sons cessam, parando por completo, o povo respira uma leve brisa que cheira a Dama da Noite; um ótimo odor que hipnotiza e toma a todos, mas, a destruição foi imensa, quase que absoluta, indignando os habitantes da pequena cidade.

No dia seguinte o pânico instalado é geral; a cidade esta de cabeça prá baixo; todos discutem a respeito da noite anterior. Nas tabernas da cidade só se fala do ocorrido. Quincas é cercado pelo povo logo que chega ao centro da cidade, Humberto e outros amigos pedem para que ele fale ao povo. Mais do que depressa, ele sobe na sacada de uma das antigas casas da rua Direita principal via da cidade, e fala ao povo tranqüilizando a todos. Quando perguntado pela providência a ser tomada na mata, ele diz:

- Meu povo, eu acabo com a mata do Jambrado, deito no chão todas as suas árvores, mas descubro o que tem lá dentro.

O povo vibra, mas, Ferraz aparece na sacada da casa de frente a de Quincas e diz:

- Mentiroso; você não pode prometer isso ao meu povo, sabe bem o porquê, seu coisinha.

Quincas retruca:

- Não sei de nada, o que sei é que o meu povo precisa de mim e nunca vou falhar com os meus.

Descendo da sacada ele cai nos braços da multidão que grita seu nome sem parar, percorrendo toda a cidade com ele nos ombros; enlouquecidos, todos gritam cada vez mais alto e sem parar:

- Quincas! Quincas! Quincas!...

Ferraz fica enfurecido vendo o amor do povo Ouroverdense por Quincas, e decide eliminá-lo.

*

Os dias passam e a cidade segue em seu cotidiano, mais o povo ouroverdense continua sem rumo, pois ninguém consegue explicar o que aconteceu na mata do Jambrado; coisas estranhas e a alguns dias arrastando-se sem nenhuma explicação, fato que desperta a curiosidade e o medo de todos quanto ao desconhecido. Muitos homens corajosos, adentram, escondidos na mata proibida, sem, contudo, encontrar coisa alguma que explique os estranhos acontecimentos; o que de fato se sabe é que os coronéis Quincas Rolha e Ferraz Maltta, os donos da mata, se negam a tomar qualquer providência.

É época de eleição municipal e o Coronel Quincas Rolha, por aclamação popular é lançado candidato à Prefeitura de Ouro Verde, pelo PRR (Partido Republicano Revolucionário). Muitos acreditam que ele será um ótimo prefeito, o elo do passado de tradições com o futuro visionário.

Otimista Quincas não perde tempo na campanha; visita o povo de porta em porta, e em uma de suas muitas visitações, a garimpar votos, chega a uma casinha muito pobre onde morava uma família de empregados de Ferraz. Vendo a forma desumana em que viviam, pôs-se pronto a ajudar. Qual não foi sua surpresa quando, saindo do humilde casebre, deparou-se com Ferraz Maltta, montado num corcel negro denominado Malagueta; Ferraz, calçado com botas pretas e esporas douradas, rodeado de capangas, diz:

- O que pensa estar fazendo aqui, não tens medo da morte?

- Não é da sua conta, responde Quincas.

- Me respeite pois eu não admito afronta, seu coisinha de merda, grita Ferraz.

Jeremias, líder dos capangas de Ferraz, retruca:

- Oia Sô Quincas, tá sabendo que o coronel Ferraz Maltta também tá se candidatando a Prefeito de Ouro Verde, e vai ganhar!

Quincas responde rapidamente ao comparsa de Ferraz:

- Ganhar! - Só se for por cima do meu cadáver; nunca vou permitir que a cidade de Ouro Verde caia nas mãos sujas de um sujeito escuso como seu patrão!

- Mas seu cadáver a gente pode providenciar rapidinho, não é mesmo patrão, responde debochadamente Jeremias.

Os peões começam a rir.

- Aquiete-se Jeremias, berra Ferraz; descendo de Malagueta e encarando Quincas olho no olho.

- Eu já venci este aí antes e vencerei de novo a hora que eu quiser.

Quincas retribui o olhar agressivo e responde energicamente:

- É Ferraz, mas agora a estória é diferente, tenho como enfrentá-lo de igual para igual, tenho posses.

- E daí? Isto pra mim não interessa, você é o mesmo coisinha que conheci tempos atrás; e tem mais, este dinheiro que você conseguiu não sei como, não é melhor que o meu; só quero que saiba, não admito que meus empregados votem em outro candidato a não ser em mim, o novo prefeito de Ouro Verde.

- Você não muda mesmo Ferraz, arrogante como sempre, tô pagando prá ver quem vai ganhar esta.

- Vai pagar alto seu coisinha de merda!..

Virando as costas para Quincas, Ferraz monta em seu garanhão, e com uma binguela acende uma tocha de fogo, aproxima-se do casebre e joga o bastão de chamas no frágil telhado de sapé que cobria todo o pau a pique.Os pobres moradores saem correndo das labaredas que devoravam toda a casinha; desesperado por perder sua casa, o empregado de Ferraz corre até ele e ajoelha-se no chão duro, implorando clemência. A resposta é instantânea; ele chuta o rosto do homem com sua bota de espora afiada, marcando a face do lacaio para sempre, e berra enlouquecido:

- Seu traidor maldito!

Cospe no rosto do homem humilhado e vai embora com seus capangas, rindo com frenesi. Quincas, pasmo com a cena que acaba de presenciar, corre a fim de auxiliar o homem que, estirado no chão, chora sem parar; indignado ele olha para aquele humilde ser e sente em seu rosto a vergonha, o medo e humilhação a que o povo era submetido constantemente por pessoas como Ferraz; então resolveu não desistir; nunca desistir, pois era a hora de toda impunidade acabar.

***

Cida, filha de Ferraz, a moça mais bonita de todas entre as jovens, tinha o costume de passear nas manhãs de primavera; colhia flores silvestres para enfeitar a casa e entrava em total êxtase quando chegava aos campos da cidade de Ouro Verde; realmente uma paisagem de encher os olhos; um tapete verde bem vivo cobria todo o extenso horizonte, a miscelânea de flores silvestres de todas as cores, formas e perfumes diferentes, complementavam o especial e secreto caminho, que Cida seguia. Bem ali por perto existiam dezenas de quedas d’água e a que a jovem mais gostava de ir era bem distante das demais, com total privacidade. Ao chegar em sua cachoeira preferida a moça despia-se e banhava-se longamente, de forma a perder a noção do tempo. Relaxava de tal maneira que esquecia de todos seus problemas; bronzeava seu lindo corpo com os raios de sol que vazavam entre as árvores que cercavam o local; o sentimento de segurança da moça quanto à privacidade do lugar era tão grande que deitava nua nas pedras exibindo seu perfeito corpo ao ar, refletido na água da piscina natural formada no conjunto da cachoeira; podia-se ver as belas curvas do corpo de Cida que assanhava-se ao arrebitá-lo para melhor vê-lo se refletir. Tocava levemente em seu rosto procurando não se sabe o quê, talvez defeitos, que de certo não ia achar; enrolava-se em seus longos cabelos castanhos e passeava suas pequenas e delicadas mãos entre suas grossas coxas; fechava seus olhos azuis cor do céu e começava a acariciar-se por entre as virilhas aveludadas, brincando de esfregar os dedos repetidamente contra a sua inocência; gemia de leve e bem baixinho. Ficava por alguns instantes imóvel, e adormecia em total êxtase. Acordava de repente e corria para pegar sua roupa; vestia-se novamente com seu vestido de mulher e com sua vergonha de menina; ia embora e quando chegava do passeio enfeitava toda a casa com as flores que havia colhido no caminho. Fazia-se de desentendida ao ser indagada pela mãe onde estava, e mentia a fim de proteger seu segredo mais íntimo.

Berenice, filha caçula de Ferraz, chora na varanda da casa grande; triste por não ter amigos, a menina é proibida de sair de casa, pois o pai tem vergonha de sua mudez, causando assim desequilíbrio irrestrito na garota; somente Dona Flor e Cida conversam e tentam ensinar alguma coisa para a menina. Á tarde ela vai ao curral onde brinca com os animais, as vacas e seus bezerros; olha atentamente os diversos cavalos de raça, puro sangue, todos super bem tratados, dentro de suas respectivas baias, e muito mais queridos por seu pai do que ela; a menina corre até o Rio das Águas Claras que cortava as Fazendas em sua extrema lateral esquerda e fica, de um barranco, observando-o, atentamente por várias horas, olha o seu gingado sinuoso, de lá prá cá, toda a sua profundidade e os muitos peixes que podia ver lá de cima; quando a correnteza aumentou sem nenhuma explicação, a menina se joga dentro do rio; a força da água puxa a garota para o fundo e ela não se importa; deixa o rio levá-la, entrega-se à morte por completo e aceita seu cruel destino. No momento em que está no fundo do rio sente uma paz tão grande; consumindo-se nesse exato momento, a última molécula de oxigênio existente em todo seu corpo, assumindo, assim, todo o seu temor de viver. Quando tudo parecia consumado a menina é retirada às pressas de dentro da água por um braço muito forte que a arranca do longo e aterrorizante tentáculo da morte; a fim de salvar a vida de Berenice, um estranho sopra ar em seus pulmões com tanta insistência que a menina, cujas mãos já estavam nos ferrolhos dos portões incógnitos, desistiu da extinção e voltou à vida; golfando um mundo inteiro de água, ela volta a respirar e tosse sem parar. Quando retoma a consciência, olha e vê um sujeito de costas, totalmente coberto por uma capa escura; usava mascará, chapéu e luvas. O bom samaritano vira-se de frente para a garota e diz:

- Berenice, doce menina, sua hora ainda não chegou. Você tem uma enorme missão na terra, não fuja do seu destino.

A menina afônica, ainda assustada, pergunta:

- Quem é você?

- Verdade, eu entendo, você não se lembra de mim, era tão novinha, responde o estranho.

Berenice então percebe que estava falando e desmaia, tal é a emoção; o bom samaritano se vira e fica olhando-a por alguns segundos; abaixa a cabeça e seu chapéu cai na areia do rio; ao se abaixar para pegá-lo e suas mãos o tocarem, um raio curto e breve corta toda a paisagem e o estranho some, desaparecendo do nada. A menina depois de algum tempo acorda, corre para casa e resolve não contar a ninguém o encontro com o novo e misterioso amigo.

*

É dia de sol e Quincas caminha até as montanhas que cercam a cidade de Ouro Verde, local de seus antigos encontros com Flor; olha a imponência de sua cidade natal vista lá de cima e pensa no futuro dele e de todos que ali moram. Senta-se junto a uma grande árvore, e encosta-se em seu grosso e rugoso tronco; lembra-se de seu passado pobre e tão difícil, deita seu chapéu no rosto e fecha seus cinzentos e ainda encantadores olhos, cochilando lentamente.Sonha com a noite de anos atrás quando saiu da cidade; no sonho é crepúsculo frio e ele estava triste, pois naquele momento Flor casara-se com Ferraz. Lembra que ficou escondido, no meio da multidão que rodeava a Igreja para ver o casório e no instante em que Flor diz sim e aceita Ferraz como seu marido, o jovem Quincas Rolha corre magoado rumo a Fazenda do Ipê, adentra na escura e sombria mata do Jambrado, mas diversas árvores atrapalham sua entrada; ele corre sem parar, tropeça em uma das muitas raízes de árvores que se entrelaçavam e forravam a incerta trilha escolhida ao acaso, e cai, batendo com a cabeça no chão; desmaia; recorda-se de que quando acorda está deitado em uma cama coberto por uma manta verde e branca bordada a mão e uma voz sombria de mulher, bem rouca diz:

- Pois bem, meu jovem, agora a sua hora chegou, estou lhe esperando há muitos anos, está pronto para a minha proposta?

Assustado ele tenta levantar da cama, mas não tem força alguma nem mesmo para levantar sequer um dedo, pensa um pouco e pergunta:

- Que proposta você tem pra mim!

- Eu tenho o que você quer, dinheiro e poder.

- Como sabe que estou atrás de dinheiro.

- Eu sei de tudo rapazinho ambicioso.

- Mas o que tenho que fazer para ter o que tanto quero.

- Permita-me.

- Acorda, acorda sua vida corre perigo.

O subconsciente de Quincas o alerta e com a destreza de um leão e rapidez de um coelho, ele acorda e levanta já segurando as mãos de Jeremias que, a mando de Ferraz, foi atrás dele para matá-lo. Torcendo os braços de Jeremias, escapa por pouco de ser estrangulado; desvencilha-se de seu inimigo e apronta os punhos para lutar. O bandido ri e puxa da cintura uma enorme faca, aponta para seu alvo, e corre em sua direção; Quincas novamente desvia-se e agarra Jeremias pelo pescoço; aperta-o bem e com a outra mão segura e torce o braço direito de seu agressor, o mesmo que segurava o descomunal punhal, a força de Quincas é tão grande que Jeremias não suporta e desiste, soltando a lâmina no chão; amarrando seu inimigo na mesma árvore em que dormia, Quincas o interroga:

- Por que tentou me matar? Seu estrupício. -Você é um lixo, Quincas, não vale nada!

- Deixa de ser bobo Jeremias, você não passa de um lambe botas, bajulador de Ferraz, nunca vai ser ninguém na vida.

- Me mata logo! Berra Jeremias.

- Não vou te matar seu nojento; você não vale a pena, é tão burro que não percebeu que Ferraz só te mandou aqui para me prejudicar.

- Como assim? Pergunta Jeremias.

- Ele sabia que você nunca iria conseguir me matar.

- Por que não?

- Porque sou filho de...

Interrompendo a frase Quincas se emudece:

- Mentira, ele nunca ia fazer isso comigo, eu não acredito.

- Pobre alma a sua, Jeremias, eu tenho muita pena de você, quando lá chegar ele vai te matar; olha bem, vou te dar uma chance de sair desta vida, vai embora de Ouro Verde o mais rápido que puder e nunca mais volte aqui, se voltar o problema é seu, deixo Ferraz te matar.

- Larga de ser trouxa Quincas, pois assim que eu sair daqui vou acabar com você e pode ter certeza que da próxima vez não me escapas.

- Você é quem sabe.

Deixando o comparsa de Ferraz preso na árvore, ele joga a faca pro alto e ela finca no chão, bem próxima aos pés do intempestivo Jeremias, Quincas vai embora a casa, ciente das pretensões de seu maior inimigo.

Continua .....

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